O espetáculo “Três Mulheres Altas”, exibido nos dias 03,
04 e 05 de abril de 2026, no Teatro Paulo Pontes, em João Pessoa, foi um
convite à reflexão sobre a vida e suas vicissitudes.
Escrita na década de 1990 pelo dramaturgo norte-americano, Edward
Albee (1928-2016), a peça contou com a
direção de Fernando Philbert, tendo sido
apresentada pela Bradesco Seguros, através da Lei Rouanet.
PRIMEIRO ATO: A VELHICE, A
MATURIDADE E A JUVENTUDE
Dividida em dois atos e com impecável atuação das atrizes Ana Rosa,
Helena Ranaldi e Fernanda Nobre, a apresentação nos fez refletir sobre a
velhice, a maturidade e a juventude. O texto de Albee nos confronta, provoca e
também nos arranca risos.
As personagens não têm nomes, sendo identificadas como A, B e C. A
personagem A é uma senhora rica de 92 anos, sofrendo de Alzheimer. As
lembranças narradas por ela sobre o casamento de aparências com “O Pinguim”,
sua relação conflituosa com a irmã e o distanciamento do único filho
arrancam-lhe a máscara altiva, mostrando-nos não só a fragilidade, mas também a
impossibilidade de lidar com o incontornável das vicissitudes da vida.
Por outro lado, a personagem B, uma mulher de 52 anos, madura e
consciente, é a cuidadora de A, apresentando, por sua vez, uma visão de certa
forma positiva da vida, mas que também carrega frustrações em relação ao
passado.
Diferente de A e B, a personagem C, com 26 anos, é advogada e
cuida dos bens de A. Ela é idealista, sonhadora e afirma que não deseja se
tornar igual às outras duas personagens. Segura de si, acredita que irá casar
com o amor de sua vida e será muito feliz. Sua fala é ouvida com risos
discretos e trocas de olhares entre A e B.
No primeiro ato, a velhice, a maturidade e a juventude estabelecem uma
série de diálogos que desvelam discordâncias e até preconceitos, demonstrados
por A, que em diversos momentos de sua fala reflete a cultura que a moldou,
marcada pelo racismo, homofobia e machismo. Ao mesmo tempo, mostra o
esquecimento da personagem, a memória que se esvai e retorna, no ir e vir
permanente, contínuo e angustiante.
SEGUNDO ATO: FASES DA VIDA
No segundo ato, o véu se desvela, e vamos compreendendo, com certo
assombro e alguma emoção, que as três personagens correspondem à mesma pessoa em
fases diferentes da vida. É aí que nos confrontamos com a passagem do tempo e
questões que nem sempre temos respostas, mas que precisam ser feitas, ainda que a
resposta seja um silêncio ensurdecedor:
·
Dos planos que fazemos para o futuro, quais se
realizarão?
·
Será que estamos nos tornando a pessoa que tanto
tememos?
·
Finalizamos ciclos e seguimos em frente?
·
Perdoamos o “eu” do passado?
·
Somos felizes com a pessoa que olhamos no espelho?
Nos encaramos no espelho?
O passar do tempo ativa em nós memórias do que fomos, recortamos alguns
fatos, esquecemos outros; como dizia Paul Ricoeur, a memória também é seletiva:
alguns fatos não queremos lembrar, mas esquecemos.
Em nossa própria narrativa, talvez não sejamos os vilões; se traímos,
foi por causa da ausência de um marido tantas vezes infiel — ao menos isso
ficou evidente na fala da personagem B, que descreveu os pormenores da relação
sexual com o cavalariço logo após a cavalgada. Não houve arrependimento; a
própria infelicidade e frustração matrimonial, por si só, justificavam o ato.
A maternidade, tão cara para nós mulheres, aparece atravessada pela dor
do filho ausente no ato dois, quando ele visita a mãe A, que sofrera um
derrame. Na fala das personagens A e B, ele é um ingrato ausente. O personagem
masculino não se justifica, apenas observa a convalescência da mãe,
aparentemente triste. Não é possível saber sua versão do afastamento, apenas a
indignação da mãe solitária.
Existem conflitos entre pais e filhos nos quais o melhor é o
afastamento. Quando C percebe a indignação de A e B em relação ao filho, ela
não aceita, pergunta o que aconteceu e fica olhando para ele, como se pudesse
tocar o futuro e mudar, quem sabe, aquele roteiro triste do final de sua
própria vida.
Sendo a peça marcada por elementos autobiográficos de Edward Albee,
ele trouxe para a narrativa aspectos de sua relação com os pais, notadamente
com a mãe, representada por A como uma mulher rica, soberba e presa às aparências da sociedade elitista norte-americana. É
possível que, no ato final da vida de sua mãe, os ressentimentos de ambos
tenham passado diante um do outro, mostrando o quão fugaz é a existência.
Construímos versões de nós mesmos, por vezes imperfeitas e/ou idealistas.
Nem sempre somos os mocinhos das histórias narradas pelos outros, mas somos os
protagonistas em nossa própria história. A realidade é que, na velhice, quando
nos deparamos com a finitude da vida, como em um último ato, retiramos as
máscaras e confessamos o que antes jamais diríamos, porque já não é possível
esconder e muito menos retocar quem nos tornamos.

Comentários